Segundo o último balanço do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida no país é de 76,4 anos, dado que, para muitos, seria justificativa suficiente para responder ao questionamento acima com um simples “nada”.
Aos 70 anos, o professor e médium Divaldo Franco resolveu dar início a um novo projeto, com o propósito de dar conta de uma inquietação pessoal ao perceber que a busca pela paz estava sendo equivocadamente institucionalizada, entregue ao poder público e ao capital privado.
Desde o fim dos anos 1990, as inúmeras entrevistas em que era suscitado a falar sobre o tema, o líder espírita alertava a sociedade que cada dia mais se armava, se isolava nas grades de casa cada vez mais altas, contratando equipes de vigilância para dar conta daquilo que a segurança pública, já naquela época, não conseguia solucionar efetivamente. Ele se preocupava principalmente com aqueles que sequer teriam recursos para fugir desse cenário cada vez mais preocupante.
Ao perceber que as obras espíritas que psicografava, escrevia sob a influência dos espíritos, não conseguiam alcançar o público geral com a velocidade necessária, estava restrita aos religiosos e entusiastas, ele propôs a um grupo de amigos da Mansão do Caminho, sua obra social fundada em 1952, a criação do “Movimento Você e a Paz”.
De acordo com Divaldo, “a verdadeira paz não virá de fora, mas de dentro, quando o ‘homem’ perceber que a atitude deve partir dele e não do outro ou das instituições”.
Mesmo depois de ter visitado mais de cinco mil cidades de países de todos os continentes, após receber mais de 600 títulos de cidadania em municípios e estados de todo canto em reconhecimento a sua atuação em nome da causa educacional, aos 70 anos, essa figura ímpar nascida em Feira de Santana, no centro-norte da Bahia, iniciava um novo desafio, vencendo a fragilidade do corpo físico, deixando ascender a potência da alma daquele que dedicou a vida inteira a alimentar gente vulnerável com o pão e a palavra.
Vinte e oito anos se passaram, Divaldo conseguiu levar a proposta do “Movimento Você e a Paz” para 72 cidades do Brasil e outros 14 países, mobilizando multidões em caminhadas, cerimônias, montando palanques em bairros periféricos considerados áreas de risco, falando diretamente com as pessoas, os anônimos, culminando com o tradicional encontro anual no dia 19 de dezembro, em Salvador, dia em que a capital, conforme decreto, celebra o Dia Municipal da Paz.
De lá para cá, a iniciativa chamou a atenção de algumas autoridades que se permitiram ver, deixou desconfortável aqueles que acreditam que “uma andorinha não faz Verão”, mas atraiu figuras de grande valor social, religioso e do entretenimento como o saudoso Monsenhor Gaspar Sadoc, já desencarnado, e artistas como o “parceiro da primeira hora”, Nando Cordel, autor do hino “Paz pela Paz”, e, mais recentemente, Ivete Sangalo e Carlinhos Brown.
Mas em 2024, com o agravamento do quadro de saúde e um tratamento para combater um câncer na bexiga, o grande orador não deu o ar da graça no palanque em Salvador. Nossa, como fez falta…
Era a primeira edição, em 27 anos, que ele não participava. Sim, os mais próximos diriam que aquele seria um teste. Ainda em vida ele verificaria se os religiosos, os artistas, os dirigentes e o público geral iriam manter firme a causa, seriam capazes de levar a mensagem da Paz através da cultura do ecumenismo para todos os lugares do mundo, seja presencialmente ou pela transmissão na internet. Assim aconteceu… Aconteceu!
Na última terça-feira (13), aos 98 anos, este revolucionário da Paz, partiu para a “vida verdadeira”, como ele mesmo preconizava.
Depois de criar 685 “filhos do calvário”, os órfãos da Mansão do Caminho (que agora atende diariamente 5 mil pessoas), após multiplicar a mensagem de Amor e ser o “correio do além” para o bem da humanidade, sempre sob efeito de problemas de saúde que lhe causavam dores lancinantes e silenciosas, Divaldo Pereira Franco deu uma trégua na atual encarnação, com falência múltipla dos órgãos.
Partiu, mas disse que confiava naqueles que por muitos anos bebemos em sua fonte de sabedoria, por vezes incompreendida e até subestimada.
Com certeza, ele aguarda que todos aqueles que até aqui marchamos em torno da causa do bem comum estejam firmes, assim como fizeram Irmã Dulce e Mãe Menininha do Gantois, suas gigantes contemporâneas.
Que nós, seus contemporâneos, continuemos nos inspirando nele e nas almas anônimas para as quais ele sempre chamou a atenção.
Que o “28° Movimento Você e a Paz”, em 19 de dezembro de 2025, seja uma grande celebração à memória de Divaldo e não um evento para homenagear ele, que sempre se colocou em segundo plano diante da causa coletiva.
Que lá estejamos nós, seja como for, falando da Paz que mora em cada um, honrando seu esforço e sua capacidade de persuadir para o Amor, seja aos 10, aos 20, aos 70 ou aos 98 anos!
Sim, “Divaldo vive” e nos ensinou que “Vale a pena Amar”!
Por Luís Filipe Veloso