A cada hora, três crianças são abusadas sexualmente no Brasil. Cerca de 51% das vítimas têm entre 1 e 5 anos de idade, e estimativas apontam que 500 mil crianças e adolescentes são explorados sexualmente no país a cada ano. Apesar da gravidade, dados sugerem que apenas 7,5% dos casos chegam ao conhecimento das autoridades — o que significa que os números reais são muito maiores do que os registros oficiais revelam.
Em Vitória da Conquista, o cenário também preocupa. Em 2021, o município registrou 472 casos notificados e atendidos de violência sexual contra crianças e adolescentes. No estado, somente entre janeiro e maio de 2025 foram registradas 568 denúncias de estupro de vulnerável pelo Disque 100, colocando a Bahia na quinta posição no ranking nacional. Para o professor Carlos Alberto Públio, coordenador-geral do Núcleo de Defesa da Criança e do Adolescente (NDCA) da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), os números estão longe de retratar a realidade:

“Nós acreditamos que essa informação sobre o abuso deve ser muito maior do que isso, porque acreditamos que somente 30% vão aos órgãos públicos denunciar. Ainda o abuso sexual de crianças e adolescentes é marcado muito pelo silêncio. As famílias ainda escondem o abuso e muitas não sabem que podem denunciar.”
O NDCA, projeto de extensão com mais de 20 anos de atuação, desenvolve atividades de prevenção, atendimento às vítimas e capacitação de profissionais da rede de proteção — que envolve saúde, educação, assistência social, segurança pública e sistema de justiça. Para o professor, a mobilização comunitária é essencial para que as pessoas saibam como e onde denunciar:
“Essa mobilização é extremamente importante para que chegue à comunidade, para que a gente fale quais são os canais onde elas podem denunciar. Crianças que são abusadas têm direito à assistência jurídica e psicossocial.”
O município também conta com um espaço especializado de escuta protegida, implementado em 2017, para ouvir crianças e adolescentes vítimas de violência sem causar revitimização. O professor alerta que as consequências do abuso podem acompanhar a vítima por toda a vida:
“Há estudos que demonstram que mesmo na fase adulta, ou até na terceira idade, a pessoa pode manifestar as consequências desse abuso. O abuso é algo que dilacera a condição social, psíquica e, em algumas situações, também a saúde desse indivíduo.”
Os dados nacionais mostram que cerca de 86% dos agressores são homens e que entre 58% e 68% dos casos envolvem familiares ou pessoas próximas à vítima, com a maioria das ocorrências acontecendo dentro da própria residência. Carlos Públio ressalta que a prevenção começa dentro de casa, com conversas sobre proteção corporal adequadas à faixa etária de cada criança:
“Isso não quer dizer que você vai falar sobre sexo com a criança. Você vai falar sobre proteção, sobre o corpo, como proteger o corpo. Cada faixa etária requer uma linguagem diferente.”
O especialista destaca ainda a importância de ensinar às crianças que elas têm autonomia sobre o próprio corpo:
“O corpo pertence à criança. Quando ela diz ‘pare’ e o adulto respeita, você está ensinando que ela pode colocar limites sobre o próprio corpo.”
Outro ponto destacado pelo professor diz respeito ao perfil dos agressores e ao ambiente onde os abusos costumam ocorrer:
“Criança não vai para colo de adulto, seja quem for. Porque o pai abusa, avô abusa, tio abusa, padrinho abusa, vizinho abusa.”
Diante de uma revelação de abuso, Carlos Públio orienta adultos sobre como agir para não prejudicar a criança:
“Se uma criança chegar para falar sobre abuso sexual, leve-a para um espaço seguro, deixe-a se expressar e não interfira na fala dela. Mostre segurança e procure as autoridades.”
Para o professor, o enfrentamento da violência sexual contra crianças exige mobilização permanente da sociedade, e a prevenção deve estar presente em todos os espaços comunitários:
“A prevenção é uma das políticas mais eficazes. Esse debate precisa acontecer nas escolas, igrejas, associações e famílias durante todo o ano. Pais, orientem seus filhos, acompanhem seus filhos e conversem com eles. Escutem as crianças. Se tiver dificuldade, procurem um profissional competente que possa orientar.”
ONDE DENUNCIAR
Polícia Militar – 190: quando a criança está correndo risco imediato
SAMU – 192: para pedidos de socorro urgentes
Disque 100: recebe denúncias de violações de direitos humanos, de forma anônima e gratuita, por qualquer pessoa
Delegacias especializadas: no atendimento a crianças, adolescentes ou mulheres — ou qualquer delegacia de polícia
Conselho Tutelar: presente em todos os municípios; os conselheiros verificam o caso in loco e podem acionar apoio policial e solicitar abertura de inquérito
Profissionais de saúde: médicos, enfermeiros, psicólogos e outros têm obrigação legal de realizar notificação compulsória em casos de suspeita de violência, com encaminhamento ao Conselho Tutelar e à Polícia
WhatsApp – Ministério dos Direitos Humanos: (61) 99656-5008
Ministério Público: pode ser acionado diretamente para adoção de medidas de proteção
Disque Denúncia – Polícia Civil (Vitória da Conquista): (77) 98856-4466