“A imprensa é parte dessa rede de proteção. Cada reportagem que traz à tona esses crimes pode evitar um feminicídio.” Foi com essa afirmação firme que a Desembargadora Nájila Brito, presidente da Coordenadoria da Mulher do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA), iniciou sua participação no Jornal Band News desta segunda-feira (6). Ela falou sobre o lançamento do 1º Prêmio de Jornalismo “Narrativas que Salvam”, uma iniciativa do TJ-BA que visa reconhecer reportagens sobre violência de gênero, feminicídio e a promoção da igualdade.
Ao comentar o papel da imprensa no combate à violência contra a mulher, Nájila foi categórica: “A imprensa, de um modo geral, televisiva, rádios, impressa ou virtual é parte dessa rede de proteção à mulher. Nós temos a rede de enfrentamento e a rede de proteção, que é ainda mais ampla, e nela está incluída toda a imprensa. A imprensa tem um papel importantíssimo, que é o papel informativo. Sempre agradeço quando se traz à tona tudo que se fala sobre violência contra a mulher, porque com isso visamos evitar aquele mal maior, que é o feminicídio.”
Ela também reforçou a importância de identificar os primeiros sinais de violência e intervir o quanto antes: “Devemos combater a violência desde o início. Mesmo quando ela é apenas psicológica, já é grave. Toda violência contra a mulher vem agregada: patrimonial, física, sexual, moral e todas elas envolvem sempre a violência psicológica. Essa, inclusive, vai se avolumando com o tempo.”
Sobre os critérios de avaliação do prêmio, a Desembargadora esclareceu que a coordenadoria não participa da seleção das reportagens: “Serão jornalistas, que não estarão concorrendo, os responsáveis por analisar os trabalhos dos colegas. Mas há cuidados essenciais, o principal é não revitimizar a vítima. Temos que colocá-la sempre como alguém que jamais tem culpa. Quem deve responder é o agressor, que cometeu o crime.”
Outro ponto sensível citado por Nájila é o risco de que certas abordagens jornalísticas, se não forem cuidadosas, acabem contribuindo para a reprodução da violência: “É fundamental evitar provocar gatilhos. Não se deve detalhar o modus operandi de um crime, para que a reportagem não funcione como um ensinamento, mas como uma forma de enfrentamento. Todos precisam conhecer o que está acontecendo, claro. Mas precisamos prevenir essa violência, que se tornou praticamente endêmica.”
Ela também chamou atenção para a gravidade das penas previstas para feminicídio, destacando que o agressor precisa saber que será responsabilizado: “O feminicídio é a maior pena do nosso Código Penal de 20 a 40 anos. A pessoa precisa saber que vai ser punida, que ficará presa. Não terá facilidade para sair com progressão de regime ou outros benefícios.”
Nájila aproveitou para incentivar jornalistas e estudantes a se inscreverem no prêmio: “Quero desejar a todos os jornalistas que participem. Só o ato de participar já é uma vitória, já mostra o comprometimento com a causa. Ganhar é uma consequência, sempre haverá vencedores e também menções honrosas. O que queremos é o engajamento total da imprensa baiana.”
Um momento marcante da entrevista foi quando a desembargadora compartilhou uma experiência pessoal e emocionante ao visitar uma vara judicial: “Uma das nossas maiores preocupações é com os órfãos do feminicídio. O que fazer por eles? Estive em uma audiência pública, e uma avó me apresentou um menino que não falava. Perguntei se era desde que nasceu, e ela me disse: ‘Não, doutora. Ele parou de falar desde que viu o pai matar a mãe’. Esse é o choque que vivemos. Saber de consequências tão graves nos obriga a continuar lutando.”
Por fim, ela orientou como jornalistas e estudantes podem participar: “As inscrições estão no site do Tribunal de Justiça, na página da Coordenadoria da Mulher. Quero muitas inscrições, porque o jornalismo, de fato, traz narrativas que salvam. Às vezes, uma mulher não sabe onde buscar ajuda. Às vezes, é numa notícia, numa leitura de jornal ou escutando uma rádio, que ela encontra a saída.”
Ela reforçou que estudantes de jornalismo também podem participar, em categoria separada: “Sim, os estudantes também participam. É uma categoria diferente, mas queremos muitos inscritos também entre os futuros jornalistas.”
E concluiu com uma mensagem de valorização ao compromisso social da imprensa: “Todos os nomes dos participantes estarão no site, como forma de reconhecimento pela contribuição. Porque essa causa precisa de todos nós, todos os dias.”