Nesta sexta-feira (12), Salvador se despediu de uma de suas maiores referências no jornalismo visual: Anízio Circuncisão de Carvalho, ícone do fotojornalismo baiano, faleceu aos 95 anos. A causa da morte não foi informada. Segundo o Sindicato dos Jornalistas da Bahia (Sinjorba), ele havia sofrido uma queda em casa e, após complicações por uma infecção de origem indefinida, foi internado no Hospital de Brotas.
Natural de Conceição da Feira, Anízio chegou a Salvador ainda menino, em 1944, em um pau de arara. Tinha 14 anos, um punhado de roupas e o sonho de vencer na capital. Contra a vontade do pai, começou a trabalhar como empregado doméstico da tradicional família Rozemberg, onde teve o primeiro contato com a fotografia, ainda no laboratório. A partir dali, traçou uma jornada que se tornaria referência para gerações de jornalistas.
Seu início profissional deu-se em 1957, quando entrou como laboratorista no recém-criado Jornal da Bahia. Menos de um ano depois, ganhou a primeira grande chance de atuar como fotógrafo em uma cerimônia no Yacht Club da Bahia. O desempenho foi tão marcante que lhe garantiu a promoção a repórter fotográfico, uma função que exerceria com maestria pelas décadas seguintes, até a aposentadoria, em 1994.
Ao longo de sua trajetória, registrou com sensibilidade e coragem os eventos políticos, sociais e culturais mais significativos da Bahia e do Brasil: manifestações durante a ditadura militar, protestos populares, campanhas eleitorais, celebrações religiosas e cenas do cotidiano. Seu clique mais célebre, apelidado de “joelho imperial”, mostra a Rainha Elizabeth II durante sua visita ao Brasil em 1968, imagem que o projetou nacionalmente.
O acervo de Anízio reúne mais de seis mil negativos, entre eles registros do Mercado Modelo, do incêndio na Feira de Água de Meninos e de tradições baianas como a puxada de xaréu em Itapuã. Câmeras clássicas como a Rolleiflex e a Speed Graphic faziam parte do seu equipamento, e a primeira delas foi justamente a que recebeu como “indenização” ao deixar o estúdio dos Rozemberg para ingressar no jornalismo.
Apesar da fama e do respeito no meio, era homem de fala mansa, gestos contidos e alma simples. Nunca teve formação acadêmica, mas foi mestre para muitos, e sua obra atravessa o tempo como testemunho da história recente da Bahia. Em 2023, teve sua trajetória celebrada na exposição “Ginga Nagô”, promovida pela Associação Bahiana de Imprensa (ABI), com curadoria do premiado jornalista de imagem Manu Dias.
Anízio deixa a esposa, Terezinha, com quem foi casado por 69 anos, seis filhos e um legado de incalculável valor para a memória cultural e jornalística do país. Seu filho Francisco, de um relacionamento anterior, foi o único a seguir seus passos na fotografia. Velório e sepultamento ainda não tiveram informações divulgadas.