Em julho de 2022, neste mesmo espaço de opinião, assinei um artigo intitulado “E aí, quem ganha?”. Naquele momento, a Bahia assistia ao início do primeiro grande embate direto entre Jerônimo Rodrigues e ACM Neto. Narrei como, do café no shopping ao balcão de uma loja de roupas, bastava alguém me reconhecer como jornalista político para lançar a pergunta inevitável. Quatro anos se passaram, o calendário eleitoral avançou para a reta final de 2026 e, por onde quer que eu passe, esse questionamento continua sendo, disparado, o mais repetido pelas ruas, eventos e bastidores. Foi o que mais eu ouvi de conhecidos e desconhecidos no caruru do fim de semana e até na minha desengonçada carreira na Maratona Salvador.
A diferença é que, se em 2022 a interrogação carregava um tom de curiosidade diante da novidade de um candidato governista ainda desconhecido, hoje ela reflete a inquietação de uma eleição absolutamente aberta e imprevisível. Chegamos a esta segunda-feira decisiva, a poucos dias do primeiro turno, com os institutos de pesquisa apontando um empate técnico milimétrico entre o atual governador e o ex-prefeito de Salvador. Trata-se de um quadro de acirramento tão denso que até a famosa Madame Beatriz, uma figura folclórica recorrentemente citada pelos políticos mais antigos quando o assunto exige o exercício da adivinhação, teria imensa dificuldade para responder quem sairá vitorioso no próximo domingo.
A imprevisibilidade do momento se deve à complexidade das forças políticas em confronto. De um lado, Jerônimo aposta na força da máquina estadual, na ampla capilaridade dos prefeitos e no peso do presidente Lula como seu principal cabo eleitoral para combater o voto descasado. Do outro, ACM Neto demonstra enorme resiliência, sustentando uma musculatura competitiva mesmo fora do poder, ancorado na lembrança de sua gestão soteropolitana e na captura do eleitorado pragmático do chamado “LuNeto”. Entre levantamentos que mostram oscilações dentro da margem de erro e narrativas de “já ganhou” alimentadas por militâncias, a única certeza é a volatilidade dos sentimentos do eleitorado baiano.
Porém, há uma dinâmica quase matemática se desenhando para o desfecho deste pleito. Embora o cenário permaneça afunilado e tomado pelos nervos da reta final, certo é que o cenário tende a ser liquidado, estadualmente, ainda no primeiro turno. A hiperpolarização entre o PT e o União Brasil drenou quase por completo o espaço das candidaturas alternativas, concentrando a escolha da maioria esmagadora do eleitorado em apenas dois polos consolidados.
Numa disputa tão canalizada entre dois projetos antagônicos, a margem para a existência de um segundo turno torna-se cada vez mais estreita. Pequenos movimentos destes últimos dias (que pode ser um debate marcante na televisão, a visita de Lula, o empenho final dos prefeitos do interior ou o convencimento do pequeno percentual de indecisos) possuem a capacidade de empurrar um dos concorrentes para além do espaço milimétrico dos votos válidos.
Resumindo: a quem me aborda nas ruas com o indefectível “E aí, quem ganha?”, respondo com a prudência do jornalismo com pé no chão, faltando seis dias para o pleito: a disputa permanece totalmente aberta. Mas a resposta definitiva não virá das cartas de Madame Beatriz e nem das apostas dos pontos de cafezinho não atingidas pelo fim das bets, virá da força soberana dos boletins de urna no domingo, pronta para encerrar este capítulo ainda na primeira rodada. Você tá ansioso? Imagine eu! A conferir. Viva a democracia!